Quem nunca subiu pelo escorregador?

Brincando no parque

Quem nunca subiu pelo escorregador?

“Mas aí não é lugar de subir. Suba pela escada, escorregador é pra descer”.

Você já deve ter escutado essa frase na pracinha, certo? Quando você era criança experimentou subir pelo escorregador ao invés da escada? Se mergulhar um pouquinho nas memórias da infância, vai dizer: sim!
Este é o Gui e acompanhei sua trajetória no escorregador desde os nove meses. Íamos à pracinha de tarde, e ao chegarmos lá, ele observava as outras crianças e logo desatava a explorar o espaço. No meio de suas investigações em algum momento se aproximava do escorregador.
Tateava aos poucos o ambiente, se arriscava algumas vezes a subir e claramente percebia quando era o momento de descer. Era o seu rico momento de pesquisa.
Como cuidadora procurei não interferir, apenas estava perto me certificando de que não havia nenhum risco real de segurança. Após garantir o ambiente seguro, não foi preciso dizer a criança onde tinha que ir, como fazer, nem transferir meus medos internos dizendo que ia cair ou se machucar.
Gui, no parquinho
É natural que exista uma vontade de ajudar a criança para que esteja na posição “correta” e que ela consiga com mais rapidez, mas é mil vezes mais satisfatório permitir que ela se descubra dentro de seu tempo e ritmo.
Quais são as possibilidades de desenvolvimento no simples ato de subir no escorregador?

  • Compreensão dos limites do próprio corpo
  • Equilíbrio
  • Coordenação motora
  • Sentimento de competência

Gui tentou por meses o movimento de subir, até que chegou o seu momento e foi emocionante perceber a sua evolução, o quanto ele conquistou mais equilíbrio, coordenação e segurança para realizar a sua intenção  – habitado em seu silêncio, no seu tempo, na sua própria busca. O que é mais especial nesse processo é perceber como a criança se sente feliz em ter realizado algo por si mesma.
Podemos nos manter tranquilos e deixar a criança livre para explorar. A interferência do adulto faz com que a criança pule etapas muito importantes em seu desenvolvimento. A curiosidade é uma condição essencial para a aprendizagem, e subir o escorregador “ao contrário”é uma investigação tão potente quanto às outras.
Quais serão os próximos passos? Será que ele vai de pé? Será que vai deitado? Será que vai de ponta cabeça? Não sei, não tenho nenhuma expectativa prévia, vou esperar pra ver o que ele me traz.
Silenciar e observar é a melhor forma de estar presente no desenvolvimento de uma criança.
[author] [author_image timthumb=’on’]https://www.mariarozas.com.br/wp-content/uploads/ingrid-e1500476209564.jpg[/author_image] [author_info]Ingrid Grattoni é arte-educadora e estudiosa das práticas pedagógicas da abordagem Pikler. Atua em um projeto pessoal de apoio a famílias nos cuidados da primeira infância.[/author_info] [/author]
 

2 Comentários
  • Erika
    Postado às 21:22h, 05 dezembro Responder

    É muito interessante essa postagem, mas tenho uma dúvida. Eu trabalho com 18 crianças de 0 a 1 ano na creche, como posso proporcionar isso para todos? Pois eles disputam muito os brinquedos e principalmente o escorregador, e todos querem subir pela parte que escorrega. Como lido, como deixo sem prejudica-los e me prejudicar?! Desde ja obrigada!

    • Maria
      Postado às 03:21h, 03 fevereiro Responder

      Olá Erika, quando trabalhamos com grupos entram outros fatores em jogo: fazer turnos, esperar… são ações próprias da vivência social/grupal que também são aprendidas. Nesse caso temos que fazer a proposta de usar todos um mesmo jeito e o que resulte mais prático para compartilhar no momento. Podemos oferecer uma ideia de uso sem expressar que seja a única, a melhor ou a correta.

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